COLUNA DO ALEXANDRE SALEM: CRISTIANISMO, 500 ANOS DA REFORMA

Alexandre Salem

Talvez a maior agitação que alvoroçou a Europa quinhentista tenha sido a reforma protestante, que por onde passava ia arrebatando comunidades inteiras de católicos. O vigor desse ímpeto reformista, entretanto, não pode ser explicado apenas por razões religiosas. Teve também componentes políticos e econômicos indissociáveis entre si e da motivação religiosa.

O primeiro sopro de cisma partiu de um monge agostiniano chamado Martinho Lutero (1483 – 1546), atingindo a Alemanha sob forma de um vendaval doutrinário de viés oposto às idéias católicas em voga, como indulgências. E o que o motivou a se rebelar contra sua ordem religiosa não foi só a venda de Títulos de Indulgência, cuja liquidez garantia desde maré mansa no purgatório até qualquer precisão de perdão a gosto e bolso do freguês; como por exemplo o perdão por ter matado, ou mesmo por ter desvirginado uma freira. Lançado no mercado da fé pelo papa Leão X, indulgência foi apenas o álibi estopim da reforma. Contudo, fora da Alemanha o luteranismo só se impôs na Escadinávia. Mas, pegando carona no afogo da história, outras formas de protestantismo logo surgiram. Uma delas, na Suiça.

Dois fatores, no entanto, faziam as idéias do protestantismo convergirem para a Suiça. Primeiro, pelo nacionalismo, fortalecido pela então recente subtração dos Cantões — faixas territoriais em que a região esteve dividida durante a Idade Média — do jugo dos Habsburgos, imperadores do Sacro Império Romano-Germânico. Tal nacionalismo suiço opunha-se à obediência a um Papa tão estrangeiro quanto os antigos dominadores. Segundo, o desenvolvimento comercial nas cidades de Zurique, Basiléia, Berna, e Genebra, fez com que comerciantes rejeitassem não só o ideal católico de glorificação e pobreza, como também, e principalmente, a condenação veemente à usura e ao lucro. Vale aventar que a Suiça não seria um grande caixa do mundo se a reforma protestante não tivesse ganhado pujança por lá. Aduz-se a esses dois fatores a grande penetração das idéias do humanismo renascentista entre a população mais culta, acarretando certa desconfiança em relação às pregações clericais.

Como na Alemanha, a venda de indulgências na Suiça por parte de emissários do Papa Leão X desencadeou revolta. Só que iniciada por Ulrico Zwinglio (1484 – 1531), cuja doutrina era mais ortodoxa que a de Lutero; não encarava, por exemplo, a eucaristia como um sacramento, nem a missa como um sacrifício. Mas Zwinglio logo é ofuscado por João Calvino quando este chega a Genebra. Calvino vinha de Paris, onde fora acusado de herege por ter inserido malandramente trechos inteiros de Lutero em um discurso proferido por Nicolas Cop, então reitor da Universidade de Paris. Porém, diferentemente de Lutero, que valorizava a consciência individual através da qual o homem podia interpretar livremente as Escrituras Sagradas, e assim comunicar-se com Deus, Calvino concebia Deus como um legislador que transmitira pelas Escrituras um conjunto de leis que deviam ser respeitadas ao pé da letra. Estava, portanto, muito mais próximo do Velho Testamento do que Lutero. Por outro lado, Calvino também se aproximou do capitalismo ao santificar os empreendimentos do comerciante.

Em suma, o calvinismo foi uma demão radical sobre o luteranismo. Simplesmente alterando o cerimonial da missa, o luteranismo conserva muitas instituições da Igreja Católica, tais como o batismo, o matrimônio, e a eucaristia. Já Calvino considerava a eucaristia mera comemoração da última ceia de Jesus. Quando Calvino precisou de atitudes que simbolizasse sua ortodoxia, recorreu para eliminar o ritual e a música instrumental da missa, despir as igrejas de vitrais, quadros e imagens, reduzindo o culto a um sermão entre quatro paredes nuas, dignas de um iconoclasta que nem ele. E, não se dando por satisfeito, de quebra aboliu ainda as comemorações da Páscoa e do Natal.

O calvinismo, ao contrário do luteranismo, difundiu-se mais por não ter origem na Alemanha, à época, Estado sede do Sacro Império Romano-Germânico, mas na Suiça. Na França, o calvinismo foi professado pelos huguenotes; na Escócia, pelos presbiterianos; na Inglaterra, pelos puritanos; e na Holanda, pelos protestantes. Perfeitamente ajustável aos interesses da burguesia, o calvinismo moldou em grande parte a ética dos tempos modernos, inspirando as revoluções contra o despotismo na Inglaterra e na França por ser contra a tirania política. Para João Calvino, a única tirania admissível era a de Deus; contanto que ele fosse seu profeta.

Termino com trecho de prefácio de José Saramago à própria peça teatral “In Nomine Dei”, obra que enfoca o fracasso de uma sanguinária rebelião protestante na Alemanha do século XVI (tempo de Lutero), da qual tenho um exemplar publicado pela Companhia Das Letras:
Entre o homem com a sua razão, e os animais com seu instinto, quem, afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida? Se os cães tivessem inventado um deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome a dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo d’Alsácia? E no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado da cauda do seu canino deus? Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome do mesmo Deus para virem a alcançar, na eternidade, o mesmo paraíso.

Alexandre Salem é romancista.

 

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