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COLUNA DO ALEXANDRE SALEM: RAIMUNDO CARIOCA

Raimundo hoje acordou injuriado. Ontem foi ao hospital do Andaraí fazer curativo num ferimento de uma bala perdida que achou sua namorada, e sequer gaze lá tinha; que dirá médico. Como de hábito, antes de sair para o trabalho se vestia ligado no noticiário. Foi quando viu na TV a polícia levando novamente o presidente da Assembléia do Rio de Janeiro, e de quebra os ex-governadores Rosinha e Garotinho. De chofre Raimundo abriu o semblante. Porque de súbito sentiu um bem estar absurdo apenas por não ser ele que o policial conduzia. Mas durou pouco sua alegria. Logo sofre revogação do seu schadenfreud*, voltando a ficar sorumbático enquanto filosófico. Começa a ver o policial como um preso também. Um preso ao sistema que cada vez mais reproduz cenas como a que ora revia. Como diria Sêneca: ‘Todos os homens participam do mesmo cativeiro, e aqueles que encadeiam uns aos outros não são menos algemados’. Raimundo, sem nunca ter sequer ouvido falar de Lúcio Aneu Sêneca, tem o mesmo pensamento do filósofo quando se aprofunda na cena da reportagem e passa a ver que o deputado é condenado por ostentar suposta nobreza. Já o policial ele o algema por exibir a obscuridade estatística à qual está condenado. Assim, do jeito que Raimundo os via, toda e qualquer vida é, como dizia Sêneca, uma escravidão. O noticiário prossegue. Agora Raimundo passa a ver o sucesso, o topo, que também persegue como valor de meta existencial, não como o cume que sonha e almeja, mas como um abismo perigoso, do qual ninguém desce a não ser como aquele deputado: levando uma tonitruante queda.

Eis que, diante de tanto descalabro que o noticiário encarreirava, e que ele ligava à falta de tudo levar pessoas a óbito nos hospitais do Rio, mais comiserativo ainda Raimundo foi sem querer ficando filosófico. Sem filosofar não conseguia entender como um país que banca com louvor a corrupção sovina grana para salvar as vítimas que ela, a corrupção, produz em serie. Confuso, pois tanto o deputado como o policial ele via algemados pelo aprofundamento do seu entendimento, portanto ninguém estava a salvo, Raimundo, buscando quietude d’alma para sair em paz para o trabalho, questiona ninguém menos que Deus; como se fosse a última instância que pudesse acorrer para retificar o crivo de uma ética para absolver nossos erros convencionais. Então, vidrado na TV, enrolando a manga da camisa, Raimundo se põe a pensar que nem Epicuro: “Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Só pode! Porque se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que é incompatível com Deus. Se não quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto, nem sequer é Deus”. Mas, se pode e quer, o que no entender de Raimundo é a única coisa compatível com Deus, donde — ele a contrapelo se pergunta — provém então a existência dos males? Para não pirar, Raimundo prefere aceitar que só pode ter alguma razão para Deus não se intrometer onde ele acha que devia. E para piorar, finda por achar que a razão é ele mesmo.

*schadenfreud — neologismo germânico criado por Kant para definir o prazer confortável que sentimos com o infortúnio de outrem.

Alexandre Salem é romancista.

Categoria: Geral

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