COLUNA DO ALEXANDRE SALEM: SUINGUE (CALMA, VOU FALAR DE MÚSICA)

Não sendo repórter, não escrevo notícias; salvo quando o assunto me instiga, e assim mesmo fugindo de caracterizar o texto com jargão noticiário; ademais, acho que não seria um repórter isento; correria o risco de expor opinião própria, independente do fato. Meu intento aqui é tão somente informar sobre os mais diversos tópicos, entretendo pelo simples prazer de ler. Hoje quero compartilhar com o caro leitor o genoma anímico de um ritmo, que, tenho certeza, só pode ser saindo da alma, pois não existe escola para se aprender. Este é o inefável suingue. Inefável porque, segundo entendidos do assunto (e eu concordo) a linguagem verbal é incapaz de definir o suingue—talvez o mais importante termo técnico da linguagem jazzística, já que diferencia o jazz de todas as outras formas musicais. O próprio termo indica certo estilo de jazz cultivado na década de 1930, executado por nomes consagrados como Roy Eldridge, Lionel Hampton, Count Basie e Benny Goodman— este último, considerado o rei do ‘swing’ (balanço).

           Se o suingue que sai de dentro indica ao interprete o momento exato em que deve encaixar cada nota, sem dúvida é o grande responsável pela precisão inesperada da música de jazz. Por mim, o sentido de suingue devia estar presente na alma de todo interprete. Faz um bem danado. Os conservatórios podem apenas fornecer conhecimento e técnica musical, mas não podem ensinar o suingue, esse balanço que faz a alma sincopar. E não podem porque este é um produto genuíno da alma. Aliás, esta é uma razão pela qual muito músico de formação européia não é bem sucedido ao compor e executar jazz. E um dos motivos disso é que ele, o suingue, está associado a uma maneira de sentir o tempo, e que é estranha a sensibilidade ocidental. Mas isso é explicável. Estudiosos da música nos ensinam que o suingue nasceu do encontro de dois sentimentos diferentes de tempo. Um teve suas raízes nos ritmos primitivos; nos africanos em particular. O outro provém dos tempos musicais mensuráveis da música ocidental. Assim, para incorporar o suingue, o europeu teria que superar seu condicionamento ao sentido ocidental do tempo. Enquanto o tempo mensurável ocidental está associado ao ritmo de base, o tempo psicológico tribal associa-se a um ritmo de melodia individual e não mensurável. Portanto, o suingue seria a busca de encontrar intersecção entre estes dois tempos: o mensurável e o instintivo. Em outras e simples palavras, seria um mediador que harmonizasse a música da cidade e a da tribo, do coração doméstico e do coração selvagem.

          Falar de suingue requer aventar o beat. O baterista Jo Jones comparou o beat a uma pulsação ou respiração regular. Literalmente, ‘beat’ significa acento, batida. Agora, no contexto específico da linguagem jazzística designa a intensidade rítmica de uma obra musical, bem como também para definir o balanço que resulta da estruturação rítmica determinada na composição. Pode-se dizer então que o beat é o eixo em torno do qual gravitam os diversos ritmos numa composição de jazz. Mas o termo beat, embora constitua a base dos sistemas rítmicos na música de jazz, é também usado para distinguir diferentes gêneros musicais em função da importância assumida pelo ritmo; a preponderância do ritmo no rock-and-roll, por exemplo, classifica-o como beat-music. Nosso saudoso Chico Science era grande expoente da beat-music.

          O chamado jazz two-beat, que consiste em acentuar dois dos quatro tempos que constituem a medida na unidade rítmica da composição, já era encontrado entre os mais antigos estilos de jazz. E quando no final da década de 1920 o two-beat parecia dá sinais de esgotamento de suas possibilidades musicais, em 1929 alguns músicos de Kansas City e Harlem estabeleceram o four-beat (que já tinha sido experimentado por Louis Armstrong). Para nosso encanto, foi a partir do four-beat que desenvolveram o suingue e as modernas técnicas jazzísticas. É já no final da década de 1930, quando Nova York começa a se tornar o ponto de confluência de estilos antigos e novos, que baseado no four-beat surgiu o estilo ‘swing’, o responsável por grande parte dos sucessos comerciais do jazz; explorados então por orquestras como a de Benny Goodman. Em suma, o que caracteriza o four-beat são os quatro tempos acentuados igualmente. O beat é sustentado pelo baterista, embora no jazz moderno a tendência seja deslocar esse apoio para o contrabaixo.

           Resolvi fazer o texto sobre suingue porque lembrei de um disco de Count Basie que meu pai gostava (e eu também). Meus tímpanos tiveram a sorte de vibrarem com o jazz ainda na infância, quando então perambulava em redor do pé da eletrola de casa abastecendo o espírito de justificativas desconhecidas, porém boas, para a eternidade do meu recreio.

Alexandre Salem, romancista.

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